As tormentas de nossa vida

Padre Nicolás Schwizer

 
 

Há na Palestina dois lagos. Um, o Morto, em permanente calma. Não há nele ondas nem tempestades. O outro o da Galileia, cobra todos os anos várias vidas humanas: a tempestade surge tremenda e inesperada, os ventos lhe sacodem, suas ondas chegam a alcançar vários metros. Mas os pescadores escolhem este segundo lago. Porque no Mar Morto não se encontra jamais uma barca, já que nele não há rastro de vida. No lago da Galileia o risco é compensado com a abundância da pesca.

Jesus também escolheu para seus apóstolos o lago do risco e da vida. Porque vida plena e fecunda inclui risco, cruz e fracasso. Por isso lhes anuncia sem rodeios: lutarão, sofrerão, serão açoitados, morrerão violentamente. Serão odiados por seu nome e lhes perseguirão de cidade em cidade.

A barca é um antigo símbolo da igreja. E esta barca passou, ao largo dos séculos, por muitas tormentas que alternaram com tempos de calma e tranquilidade. E sabemos que estas tormentas não vão acabar até o final dos tempos.

Algo semelhante pode se dizer também dos povos, famílias, pessoas, de cada um de nós. A barca de nossa vida atravessa muitas tormentas. É inevitável. Pertence a existência humana. Pensemos, por ex: nas tormentas da:

• Vida familiar: problemas materiais, dificuldades no matrimônio, na educação dos filhos.

• Vida profissional: falta de trabalho, dispensas, injustiças.

• Vida religiosa: crises e dúvidas de fé, desilusões com sacerdotes, afastamento da Igreja e de Deus.

• Vida pessoal: limitações físicas ou psíquicas, enfermidades, tentações, inimizades, golpes do destino como a morte de um ser querido.

Nestas tormentas da vida, os cristãos devem distinguir dos demais. Sabemos que não estamos sozinhos em nossa barca de vida. Sabemos que Jesus nos acompanha ainda quando pareça não preocupar-se por nós. A fé nos diz que Ele vela por nós. Porque Ele está comprometido, está metido dentro de nossa barca.

Deus é fiel a seu compromisso. Mas Deus pode estar como esteve na barca de Pedro, isto é, dormido (Mt 8, 23ss). Pedro tratou de lutar sozinho contra a tempestade. E quando esteve no auge da angústia lembrou-se que estava o Senhor e o despertou. Conosco acontece o mesmo: esquecemos-nos que Ele está, deixamos que permaneça dormido. Queremos lutar sozinhos e apenas quando estamos muito desesperados lembramo-nos do passageiro que é o mais importante.

Deus é um Deus da vida. Está presente permanentemente em nossa vida. E principalmente está presente quando mais o necessitamos: no meio das tormentas. Só que nestes momentos é mais difícil crer em sua presença, tal como aconteceu com os apóstolos no meio do lago.

Porque a fé não é aceitar artigos de fé: é crer em uma pessoa, é crer em Jesus Cristo, é confiar nEle, é confiar-se a Ele. A fé é um ato pessoal, entre pessoa e pessoa, entre homem e Deus. É um ato de confiança, de entrega, de seguimento total e sem limites.

E, por isso, o sentido das tormentas em nossa vida é: provar nossa fé numa situação extrema; aproximar-nos mais de Deus e colocar nEle toda nossa confiança.

Na pedagogia do risco de Jesus, a cruz e o sofrimento são necessários para o triunfo final.

Queridos irmãos, peçamos ao Senhor que nos faça crescer em nossa fé e nos regale uma confiança heróica no meio das tormentas de nossa vida.

Perguntas para a reflexão

1. Qual é nossa atitude diante do fracasso, cruz e risco?
2. O incorporamos a nossa vida, como algo necessário e até como a chave pra nossa fecundidade?
3. Penso em Jesus quando tenho problemas?

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