O Instrumento de Deus

Padre Nicolás Schwizer

 

 

Dependência de Deus. Cremos que a Mãe de Deus é a Vencedora em todas as batalhas. Mas, qual é o preço de suas vitórias? Diz o Proto Evangelho: “Tu observarás seu calcanhar” (Gen 3,15). O que significa isso? Interpreta o Padre Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt: “Isso significa dizer que vivemos na ordem da cruz”. Também a Mãe de Deus e Jesus viveram nessa ordem. Não tinham o pecado original, mas assumiram uma de suas conseqüências: o sofrimento e a cruz.

Nós vivemos na ordem da cruz: nosso calcanhar foi ferido. Temos que contar com isso e tomá-lo a sério. E qual é a cruz mais pesada para o homem que aspira ao céu? É o peso de sua própria natureza, a fragilidade humana. Frente a isso só temos uma coisa a fazer: dizer sim, de todo coração, à nossa pequenez. Aceitar, com grande humildade, nossa debilidade. Essa sim é a condição essencial para ser apto, para ser aceito como instrumento. Nossas debilidades são “como um trampolim para lançarmos nos braços de Deus”, assegura o Padre Kentenich.

É algo de grande poder dizer que Deus quer me utilizar como instrumento, apesar de minhas debilidades. E quantas debilidades levamos conosco! Debilidades corporais, espirituais, morais... Mas, maior ainda é dizer: Deus me ama precisamente porque sou fraco.

Por que Deus permite nossas debilidades, nossas faltas? A verdadeira santidade não consiste, de modo algum, em nunca cairmos, em não termos pecados. A verdadeira santidade consiste na dependência de Deus, na união com Deus. E a pessoa magnânima se sente tanto mais dependente quanto mais conhece sua própria debilidade. Por isso, Deus permite a debilidade. Porque quer que nos vinculemos a Ele. Minha debilidade deve ser como uma força que me empurra para os braços de Deus.

O título mais valioso pelo qual tenho direito em receber a misericórdia de Deus, é o de minha miséria pessoal. Por isso, Padre Kentenich pode dizer: “A pequenez conhecida e reconhecida pelo homem, pelo filho, significa 'impotência' do Pai e 'onipotência' do homem”.

É isso que expressa São Paulo com as palavras: “Quando sou fraco, é que sou forte”. (2 Cor 12,10).

A atitude de instrumento. O grande obstáculo para a atividade de Deus no homem e por meio do homem é e continua sendo a doentia vontade própria. O verdadeiro instrumento renuncia a ela, para estar somente a disposição de Deus e de sua obra. Ali onde Deus o coloca, está ele com toda sua pessoa e sua força e vive somente para sua tarefa.

Padre Kentenich costumava contar nesse contexto o exemplo de um sacerdote de Colônia. Ele mandou pintar seu ideal pessoal na casa paroquial. O quadro mostrava um burro, e sobre ele a Mãe de Deus, com Cristo. Com isso, queria dizer: eu sou o burro sobre qual podem sentar-se Cristo e a sua Mãe. E, como o burrinho, eu devo levar a Cristo e Maria pelo mundo. Devemos cultivar em nós a consciência de ser um burrinho, de ser um instrumento predileto nas mãos de Deus e de Maria.

Ao chamar-me a essa comunidade, a essa paróquia, Deus me elegeu para ser seu colaborador. Escolheu-me para ser instrumento em sua mão e na mão de Maria, para fazer grandes coisas poir meio de de mim. O que importa não é, então, minha capacidade ou minha pequenez pessoal. O que importa é minha consciência de instrumento, minha disponibilidade e obediência aos desejos do Pai. Se me sinto instrumento por meio do qual Ele está atuando, isso me dá uma grande segurança frente à vida e seus desafios, e desperta uma extraordinária força criadora. E esse tem sido o segredo dos santos. Por isso, consciência de instrumento ou consciência de ser o “burro” da Mãe de Deus e de Deus, para seus planos divinos.

Perguntas para a reflexão
1. Busco a Deus em meu apostolado?
2. Sinto-me um burro da Mãe de Deus?
3. A dedicação pessoal está presente em minhas tarefas?

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